O vento soprou forte. Desta altura, a rua tinha agora um aspecto monástico. Ao invés de árvores atapetadas de orvalho: árvores de cimento prenhes de luz. Eram como São Franciscos, com seus halos, que se curvavam ao pé dela em deferência à procissão de silêncio que por ali passava. Não se sabia bem ao certo onde acabava o pavimento de paralelepípedos e onde começava a perna do cachorro pulguento que nadava pela calçada encoberta de neblina e fumaça. Tudo tão confuso e amalgamado quanto o próprio pensamento humano. E o homem desconhecido vislumbrava aquilo. Parecia-me mais um salgueiro desgalhado postado na soleira da casa abandonada, que não tinha outra função senão impedir a entrada de gatunos ou de quem quer que seja que a tanto intentasse.
Pedro deitou-se sob os alvos lençóis, apagou as luzes e, fugazmente se lembrou dos lampiões que ficavam acesos durante a noite quando era criança. Em seguida, lembrou-se do irmão, que dormia a seu lado, e que agora dormia na sala, num retrato da parede. Não pensou mais na volatilidade gloriosa da vida, não tinha aquele espanto ao relembrar o fato de que centenas de pessoas estariam, naquele mesmo segundo, morrendo dramaticamente, ou pior, se suicidando, se casando com amores explosivos, nascendo radiantes, cruzando avenidas, comprando flores ou comendo abacates com graciosidade ao redor do mundo. A alma, finalmente, voltou-se para dentro daquelas paredes, daquele corpo, daquela realidade que, mal sabia ele, era medíocre, e era sua, e era a de todos. Viu, então, a moça triste dos óculos de aros de tartaruga fechando o livro, emitindo um som surdo. E o cigarro de palha do homem desconhecido apagou.
“É uma pena que a moça dos óculos de aros de tartaruga já não esteja mais entre nós para nos contar aquelas pitorescas estórias sobre paragens longínquas. Sua voz, tão suave, se entrelaçava à brisa vespertina, eriçava as cortinas, perdia-se nos cachos de Virginia e depois ia ecoar lá nos fundões do mundo, ou do outro lado da rua, tanto faz, tocando a nuca do menino que teimava no clarinete:do, re, mi...Não, é mi bemol!”,dizia o professor em pensamento, segurando alguns livros que haviam acabado de chegar da capital, ao mesmo tempo em que sorvia o restante de um café já frio, servido em uma xícara de estranha graciosidade, com bordas carcomidas e gravuras chinesas: nela era possível observar cules vestidos em azul em meio a infinitos arrozais que ondulavam ao impulso da aragem como um denso e irrequieto oceano verdolengo. Mais ao fundo, das entranhas das montanhas de cumes decepados pelos cúmulos nimbos tão baixos como se apresentavam naquela hora quiçá matinal, vinha um nobre manchu vestido em preto, pousando tal como espectro faustoso e temido, flutuando sobre as águas caudalosas; e, conforme os mares se abriam, entrevia-se um lacaio escanifrado e suado galgando com seus pés descalços a terra molhada e viçosa da estradinha que serpenteava aquela planície: carregava o nobre circunspeto em um jinriquixá. Havia uma pequena vida acontecendo ali, e ninguém se dava conta.
"Pedrinho, menino traquinas, sempre com aqueles olhos proeminentes de um azul cobalto atentava mais para as pálidas mãos onde pousava aquele velho volume. Tão bruto na aparência. Era assim: continente e conteúdo. A boca da triste moça parecia ter parado no tempo. Restava-me a impressão de que, a qualquer hora do dia ou da noite, lá estaria ela em sua cadeira Windsor (que o pai trouxe da Inglaterra de navio!) pronta para contar a próxima aventura ou romance. Na maioria das vezes, ela esboçava palavras que não alcançavam meu rude conhecimento de criança, mas que, por algo que sabe se lá como os homens devem chamar, me causava fascínio. Pena que se fora tão cedo. Era tudo como um sutil adágio apenas perceptível aos anjos. Tudo tão deliciosamente naïf, como toda infância o é. Talvez seja por isso que ainda gosto tanto daqueles pré rafaelitas que hoje podem ser encontrados nos calendários da farmácia”, lembrava-se enquanto limpava os resquícios de açúcar de confeiteiro que ficara nos cantos dos lábios e embaixo do bigodinho.
E, como que derretidas pelo sol primaveril, as imagens da infância já naturalmente se esvaiam enquanto um gato dourado e peludo por ali passava, rolando envolto na poeira como fragmento desprendido do Astro-rei. Preguiçosamente esticou-se, arqueou a corcova, roçou-se nas azaléias e, com os olhos semicerrados, deitou-se na soleira da casa onde vivera Dna. Hulda, tendo como plano de fundo São José de azulejos pintado em azul com um pincel grotesco, mas que ainda sim preservava um certo olhar piedoso. O bichinho adormeceu sobre seu próprio pelo macio, parecia estar inebriado no intenso (e quase insuportável) olor exalado pelas goiabeiras.
O professor pagou e seguiu caminhando pela rua com seu andar canhestro, típico desses homens que se entregaram aos livros ao invés de se entregarem à vida. Tinha os pés abarrotados de passado, as mãos trêmulas de presente e os olhos cegos de futuro, foi quando ele viu, pela primeira vez, sentado nos degraus da entrada da casa abandonada, a estranha figura do homem desconhecido a olhar para o infinito tendo apenas um óculos escuro como fronteira de tudo mais que fosse mundo.“Quem seria esse homem?”. O professor, sempre interessado em um papo com os moradores do bairro, foi se aproximando do homem – dizem as más línguas que, inclusive, tencionava candidatar-se à vereança e, por esse mesmo motivo, sempre se apresentava tão simpático e falante, chegando a beirar, por vezes, o ridículo. Porém, quando Seu Heitor gritou:“Doutor, o senhor está esquecendo esse aqui”, o professor voltou-se bruscamente para o estabelecimento. “O que foi?”. “O livro, doutor. Tá esquecendo!”.Dirigiu-se até o bar maldizendo sabe-se lá o que ao mesmo tempo em que uma cambada de gralhas se apinhava na beira do regato em tremenda algazarra, e, ao observar as mãos ensebadas do pobre homem que marcavam a capa verde e lustrosa, não conseguiu esconder a cara de nojo. Ao pegar o grosso volume com as pontas dos dedos, inevitavelmente deixou-o cair no chão. E o livro ficou lá, estatelado, bem na página onde constava o seguinte verso:
“To see the world in grain of sand and Heaven in a wild flower. Just hold infinity in the palm of your hand And Eternity in an hour.”*
O recibo de entrega foi flanando lentamente sobre o solo até que uma rajada de vento o soprou aos céus, passou pela careca de Heitor, titilou os dedos pequenos do Professor e foi lentamente rendendo-se ao solo, até beijá-lo com delicadeza, indicando orgulhosamente, com uma letra quase ilegível: “encomenda entregue em Vinte e Um de Setembro de Mil Novecentos e Sessenta e Oito”.
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* Heaven in a wild flower, Willian Blake, musicado por Bill Douglas:
Pressionando as pálpebras firmemente, mergulho a face no desconhecido. Do Caos, vejo a criação. Vejo o Éden. Vejo o barro. Vejo o sangue. Aspiro o som nasalado do vento, como que emitido por grandes tubos de um órgão solene: é o hálito de Deus que recende a chuva, a terra molhada e ao sal dos oceanos. Suspenso no universo, com um meio sorriso nos lábios, sinto as cócegas das estrelas, coço as costas de Plutão e bebo o leite da via Láctea. E da escuridão profunda me vem a imagem de uma cidadela: uma pequena colcha de retalhos com costuras tremeluzentes. Cheio de falhas e faíscas é o centro dela visto daqui. Abaixo de uma lua em forma de arco de unha cortada a gotejar argenta luz em meio a turbulentas nuvens, como rolos negros de fumo de alcatrão, circunscritos, contudo, com filigranas de prata, vi as abóbadas das árvores apresentando-se atapetadas de orvalho. Os telhados imperfeitos abrigando as gentes - vi até os olhos azuis da pequena menina. Lá estava ela, friorenta com os braçinhos cruzados contra sua bonequinha de pano ao lado da janelinha verde; suas bochechas róseas a cintilar suas lágrimas de pavor, enquanto seus irmãos, à luz das trêmulas velas, exibiam suas serenas carinhas imergindo da brancura dos lençóis, dormindo placidamente e tendo suas mãozinhas entrecruzadas sobre seus peitos como quem aguarda pacientemente a chegada da aurora que, lentamente vinha tomando de assalto as ruas, as cidades, o continente, revelando os segredos, desnudando os crimes cometidos na calada da noite, estapeando o rosto da humanidade e revelando a previsibilidade de seus atos.
À medida que Apolônio singrava pelas vielas, tossindo e pigarreando; enquanto dirimia a chama fosca dos lampiões envoltos na azulada e aveludada névoa matutina, esta se dissipava, e assim se tornava possível ver seus pés descalços. Um deles, visivelmente bichado, tendo espessas escamas, como cascas de mogno, cobrindo seus poros e, abaixo dele, abaixo das rodas do tílburi, dos prédios públicos, da igreja da matriz, das ruas de barro, dos cascos dos cavalos que indolentes puxam seus plaustros à luz do dia, dormia a terra que, erguendo seus joelhos e ombros em seu interminável sono, sonhava ser céu.
Na ponta da Travessa Sem Saída que, naquela época, ainda dava costas para um regato mal cheiroso, Apolônio constatou que, naquele momento... Não havia nada de muito importante para se pensar, pois é bem verdade que há uma época na vida que os homens, mais do que nunca, se sentem meros autômatos, vãos pensadores, massas vazias perambulando num espaço infinito, indefinido; é nessa época que também cai sobre eles o peso da inércia, a culpa por nada de significativo fazer pela humanidade. Acender e apagar as luzes todos os dias. Pensar nas pequenas-grandes questões, não mais. Galgar a terra a cada dia se enraizando como micro pústulas (ou seriam sanguessugas?) no enrugado e milenar úbere azul.
Apolônio simplesmente seguiu seu caminho navegando no céu de nuvens refletido nas poças d’água, e então os tordos trucilaram quase que no mesmo instante que Dna. Hulda abriu uma frestinha da porta fazendo soar os guizos. Sim, era natal. Para ela, particularmente, tratava-se de uma época de tristes lembranças, apesar de bem saber que todas épocas tinham motivos para serem inglórias. A guerra, os estrondos do canhoneiro, as suas conseqüentes vitimas - que agora jazem em paz nos confortáveis papeis repletos de arabescos das paredes amareladas das salas. A sensação de que brevemente estaria ela ocupando um espaço da parede de alguém não a assustava, pois sabia que ninguém a considerava a tal ponto. Nunca dirigia uma palavra a uma vizinha, mas, mesmo assim, não expressava altivez ou petulância. Era apenas irrelevante. Ficava estranhamente feliz ao imaginar que, diferentemente de todos, não serviria de tralha histórica até que seu nome virasse fuligem ao dobrar dos séculos, que não daria lágrimas a ninguém, bastava as que derramava todas as manhãs pelos únicos mortos com quem ela ainda se preocupava, aqueles que ainda a faziam acordar palpitante como se estivessem a bater violentamente em seus umbrais. As manhãs transcorriam emaranhadas ao marulhar monótono das águas do regato, e então escoavam pelos átrios da memória da velha, o som do amor, o gosto da tristeza e o cheiro do pranto de outrora. E ela nem percebeu quando a matriz badalou as onze e o feijão queimou. Findou sua diligência apenas ao ouvir o sineiro da bicicleta do carteiro tinir, e afoitamente foi ter com ele a fim de saber se havia algo para ela. Mas nada. Não havia nada. Decepcionada, no meio da rua, ergueu os braços para o céu e os suspendeu violentamente em seguida; permaneceu curvada até que, com os olhos cansados, para sua surpresa, avistou um homem na porta da casa abandonada. Estava sentado nos degraus maquilados com a pátina do tempo. Tratava-se de uma visão incomum para aquela rua quase despovoada, mais incomum ainda era seu aspecto: rosto comprido, escalavrado, tingido em cores difusas, cigarro de palha na boca aceso a todo vapor como a fornalha de um transatlântico. Não se movia. “Quem seria esse homem?”, pensou Dna. Hulda, tendo a sensação de tê-lo visto em um de seus sonhos, onde seus amados finados se assentam à mesa com unicórnios a roerem ossos. Porém, por ser tímida e temerosa, hesitou em acenar. Voltou, aturdida, seus olhos para a casa de Dna. Veridiana, que ficava à direita da casa abandonada, ouviu um choro de bebê, um berro primevo, o arroto de um universo bêbado no banquete das vísceras flácidas e rígidas, mas não se importou, pois mais lhe interessara ver, através da janela de vidros embassados, que, na cozinha de sua vizinha, o calendário indicava Onze de Dezembro de Mil Novecentos e Dezenove, data que não fazia a mínima diferença para ela, mas que, no entanto, era o primeiro dia de vida de Antonio Albuquerque Videira.
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* Courtyard Lullaby, Loreena Mckennit, para ouvir durante a leitura: