1.10.10

Voyeur: manhã (reeditado)

Manhã

"Come to me, my love
Hear the pulse of the land"* 

Pressionando as pálpebras firmemente, mergulho a face no desconhecido. Do Caos, vejo a criação. Vejo o Éden. Vejo o barro. Vejo o sangue. Aspiro o som nasalado do vento, como que emitido por grandes tubos de um órgão solene: é o hálito de Deus que recende a chuva, a terra molhada e ao sal dos oceanos. Suspenso no universo, com um meio sorriso nos lábios, sinto as cócegas das estrelas, coço as costas de Plutão e bebo o leite da via Láctea. E da escuridão profunda me vem a imagem de uma cidadela: uma pequena colcha de retalhos com costuras tremeluzentes. Cheio de falhas e faíscas é o centro dela visto daqui. Abaixo de uma lua em forma de arco de unha cortada a gotejar argenta luz em meio a turbulentas nuvens, como rolos negros de fumo de alcatrão, circunscritos, contudo, com filigranas de prata, vi as abóbadas das árvores apresentando-se atapetadas de orvalho. Os telhados imperfeitos abrigando as gentes - vi até os olhos azuis da pequena menina. Lá estava ela, friorenta com os braçinhos cruzados contra sua bonequinha de pano ao lado da janelinha verde; suas bochechas róseas a cintilar suas lágrimas de pavor, enquanto seus irmãos, à luz das trêmulas velas, exibiam suas serenas carinhas imergindo da brancura dos lençóis, dormindo placidamente e tendo suas mãozinhas entrecruzadas sobre seus peitos como quem aguarda pacientemente a chegada da aurora que, lentamente vinha tomando de assalto as ruas, as cidades, o continente, revelando os segredos, desnudando os crimes cometidos na calada da noite, estapeando o rosto da humanidade e revelando a previsibilidade de seus atos.

À medida que Apolônio singrava pelas vielas, tossindo e pigarreando; enquanto dirimia a chama fosca dos lampiões envoltos na azulada e aveludada névoa matutina, esta se dissipava, e assim se tornava possível ver seus pés descalços. Um deles, visivelmente bichado, tendo espessas escamas, como cascas de mogno, cobrindo seus poros e, abaixo dele, abaixo das rodas do tílburi, dos prédios públicos, da igreja da matriz, das ruas de barro, dos cascos dos cavalos que indolentes puxam seus plaustros à luz do dia, dormia a terra que, erguendo seus joelhos e ombros em seu interminável sono, sonhava ser céu.


Na ponta da Travessa Sem Saída que, naquela época, ainda dava costas para um regato mal cheiroso, Apolônio constatou que, naquele momento... Não havia nada de muito importante para se pensar, pois é bem verdade que há uma época na vida que os homens, mais do que nunca, se sentem meros autômatos, vãos pensadores, massas vazias perambulando num espaço infinito, indefinido; é nessa época que também cai sobre eles o peso da inércia, a culpa por nada de significativo fazer pela humanidade. Acender e apagar as luzes todos os dias. Pensar nas pequenas-grandes questões, não mais. Galgar a terra a cada dia se enraizando como micro pústulas (ou seriam sanguessugas?) no enrugado e milenar úbere azul. 


Apolônio simplesmente seguiu seu caminho navegando no céu de nuvens refletido nas poças d’água, e então os tordos trucilaram quase que no mesmo instante que Dna. Hulda abriu uma frestinha da porta fazendo soar os guizos. Sim, era natal. Para ela, particularmente, tratava-se de uma época de tristes lembranças, apesar de bem saber que todas épocas tinham motivos para serem inglórias. A guerra, os estrondos do canhoneiro, as suas conseqüentes vitimas - que agora jazem em paz nos confortáveis papeis repletos de arabescos das paredes amareladas das salas. A sensação de que brevemente estaria ela ocupando um espaço da parede de alguém não a assustava, pois sabia que ninguém a considerava a tal ponto. Nunca dirigia uma palavra a uma vizinha, mas, mesmo assim, não expressava altivez ou petulância. Era apenas irrelevante. Ficava estranhamente feliz ao imaginar que, diferentemente de todos, não serviria de tralha histórica até que seu nome virasse fuligem ao dobrar dos séculos, que não daria lágrimas a ninguém, bastava as que derramava todas as manhãs pelos únicos mortos com quem ela ainda se preocupava, aqueles que ainda a faziam acordar palpitante como se estivessem a bater violentamente em seus umbrais. As manhãs transcorriam emaranhadas ao marulhar monótono das águas do regato, e então escoavam pelos átrios da memória da velha, o som do amor, o gosto da tristeza e o cheiro do pranto de outrora. E ela nem percebeu quando a matriz badalou as onze e o feijão queimou. Findou sua diligência apenas ao ouvir o sineiro da bicicleta do carteiro tinir, e afoitamente foi ter com ele a fim de saber se havia algo para ela. Mas nada. Não havia nada. Decepcionada, no meio da rua, ergueu os braços para o céu e os suspendeu violentamente em seguida; permaneceu curvada até que, com os olhos cansados, para sua surpresa, avistou um homem na porta da casa abandonada. Estava sentado nos degraus maquilados com a pátina do tempo. Tratava-se de uma visão incomum para aquela rua quase despovoada, mais incomum ainda era seu aspecto: rosto comprido, escalavrado, tingido em cores difusas, cigarro de palha na boca aceso a todo vapor como a fornalha de um transatlântico. Não se movia. “Quem seria esse homem?”, pensou Dna. Hulda, tendo a sensação de tê-lo visto em um de seus sonhos, onde seus amados finados se assentam à mesa com unicórnios a roerem ossos. Porém, por ser tímida e temerosa, hesitou em acenar. Voltou, aturdida, seus olhos para a casa de Dna. Veridiana, que ficava à direita da casa abandonada, ouviu um choro de bebê, um berro primevo, o arroto de um universo bêbado no banquete das vísceras flácidas e rígidas, mas não se importou, pois mais lhe interessara ver, através da janela de vidros embassados, que, na cozinha de sua vizinha, o calendário indicava Onze de Dezembro de Mil Novecentos e Dezenove, data que não fazia a mínima diferença para ela, mas que, no entanto, era o primeiro dia de vida de Antonio Albuquerque Videira.




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Atibaia,
Primavera de 2007
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* Courtyard Lullaby, Loreena Mckennit, para ouvir durante a leitura:


9 comentários:

Anônimo disse...

Bravo!!! Os habitantes desse seu universo infinito me cobrem em todas as dimensões possíveis. Belíssimo. bebo suas metáforas como um antídoto contra meu tédio. Um abraço. Jane

Lúcia disse...

Ler seu conto apenas uma vez,como já foi dito, é impossível. Eu que descolori os cabelos recentemente numa tentativa desesperada de me divertir mais como toda boa loura ( não loura boa diga-se!), confesso que os neurônios que perdi no processo ,me fazem muita falta. Mais que 99 vezes, devo ter lido ainda umas outras tantas, sem realmente firmar uma idéia cega ou ouvir uma sintonia plena. Creio que haviam tantos humanos intercalados, tantas minúcias, tristezas, licensas , que cheguei a me perder. Nas quantas vezes que me perdi, de tantas , tenho memórias oníricas dissonantes. Adoro esta enxurrada de imagens que inundam suas palavras, quero afogar-me toda vez que leio, os instintos suicidas chegam a ser desconcertantes e você meu caro, ainda me arrebenta as cisternas. Sou sua velha fã ( Muito, muito velha, de tempos de paisagens híbridas e monstros presos atrás do biombo ) e é com extremo prazer que venho me perder em suas estórias. ( Quanto ao que é salutar, vejamos, estou tão saudável como uma tartaruga centenária e os sonhos, estão escorrendo pelo esgoto. Como uma fileira de letras em fila indiana. ) Abraço.

Raffert disse...

Caro Otávio, estou há quase um mês tentando acabar de ler este prolífico conto. Citações deveras bem colocadas. Metáforas, nem se fala. A descrição do azulejo onde o gato se apoia, superba (entre muitas). Mas confesso, que me perdi. Mas, se tenho que ler Eco cem vezes para degustá-lo, por que não Matinez noventa e nove? Forte abraço

Hannah Herman disse...

Não há dúvidas que este seu conto é o mais complexo que você já escreveu, além de ser o mais prolífico, jamais prolixo. Quem consegue obter alguma compreensão de Calda de Açúcar tem, indubitavelmente, a primeira pista para obter um entendimento vago de Voyeur. Temos que nos contentar com um entendimento vago apriori, sim, afinal estamos diante de uma obra genuinamente moderna ao melhor estilo Joyce/Woolf. Se levarmos em consideração a teoria de análise da arte moderna, de Adorno, concluímos que qualquer obra de arte moderna, principalmente as sérias produzidas nesse e no último século, não devem ser compreendidas, pois elas têm uma finalidade sem fim, um caráter fetichista. Devemos admirar teu conto mediante o prazer artístico que ele nos oferece... E isso ele oferece muito! A narrativa, por si só, é uma intrincada colcha de retalhos que, a cada dobra, nos presenteia com um sentimento diferente, com imagens que não são meras imagens, mas verdadeiros retratos de estados de espíritos que, até hoje, ninguém, dentre os escritores que conheço, e que não são poucos, conseguiram retratar. A cena do gato, por exemplo, me fala de uma preguiça específica, uma preguiça que senti após uma bacalhoada em Évora, Portugal. Suas imagens têm poder, são como alguns filmes franceses que discorrem sobre a alma humana quase que exclusivamente com fotografias de tirar o fôlego.

O homem desconhecido é, sem dúvidas, uma nova versão de Mrs. Huntington. O restante dos personagens, todos tão humanos, tão verdadeiros, mas tão fugazes... Talvez, aliás, seja isso mesmo que os torna tão reais: a falta de importância que cada um tem num macro-contexto; mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo, são todos tão importantes para que essa colcha de retalhos, que nada mais é que “the world in a grain of sand” permaneça viva.

A imagem da xícara é algo que jamais esquecerei, é como aquela cena de um filme que se torna antológica. O início, assim como o fim, são verdadeiros orgasmos literários. Confesse, você teve uma ereção ao escreve-los! É o tipo de coisa que cala a boca dos críticos e nos dá vontade de levantar para te aplaudir, aliás, você tem causado freqüentemente essa vontade em mim.

Saiba que continuarei lendo esse texto porque sinto que há nele mais elementos para se refletir e possivelmente voltarei aqui para comentar novos aspectos dele.

Adoro o que você escreve, adoro o que você é... Enfim, te adoro com a mesma devoção que Allegra adorava Celso... E saiba que eu já até recortei uma foto do Robert Downey Jr. de uma revista porque algo nele me faz lembrar muito você.

Um beijo de sua fã n°1

Ariana Caritas disse...

Ler seu conto apenas uma vez,como já foi dito, é impossível. Eu que descolori os cabelos recentemente numa tentativa desesperada de me divertir mais como toda boa loura ( não loura boa diga-se!), confesso que os neurônios que perdi no processo ,me fazem muita falta. Mais que 99 vezes, devo ter lido ainda umas outras tantas, sem realmente firmar uma idéia cega ou ouvir uma sintonia plena. Creio que haviam tantos humanos intercalados, tantas minúcias, tristezas, licensas , que cheguei a me perder. Nas quantas vezes que me perdi, de tantas , tenho memórias oníricas dissonantes. Adoro esta enxurrada de imagens que inundam suas palavras, quero afogar-me toda vez que leio, os instintos suicidas chegam a ser desconcertantes e você meu caro, ainda me arrebenta as cisternas. Sou sua velha fã ( Muito, muito velha, de tempos de paisagens híbridas e monstros presos atrás do biombo ) e é com extremo prazer que venho me perder em suas estórias.

Ana Valéria Sessa disse...

Otávio, Só agora te leio com mais vagar. As vezes fico impressionada com a maneira como você trabalha com o fluxo de consciência. Pequenos microcosmos, na sua pena... ou pincel ? vão ganhando uma dimensão fortíssima que se sobrepõe, deliciosamente, à realidade. A rica descrição da xícara – Que delicadeza ! Eu jamais conseguiria, acho que minha pena é mais selvagem ! Pensei na forte influência que você tem de Virgínia Woolf aliás, foi pensando nela que estruturei a estória do fazedor de chuva, lembra o microcosmo dos soldadinhos ? Há aqueles místicos que revelam o destino observando as folhas do chá no fundo da xícara. Você revela delicados entremeios da alma. Muito lindo o seu conto ! Um voyeurismo dos bons que faz jus a máxima, e nem vou dizer de quem: “ Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro desperta”. O poema escolhido é a síntese perfeita de toda a reflexão que essa narrativa atemporal encerra. Confesso que tive que reler seu conto algumas vezes, pois a riqueza de detalhes torna-o, por vezes, bem intricado, mas não menos belo. Um grande beijo e parabéns ! Valéria

Rejane Borges disse...

É tudo tão estranho e, no entanto, a narrativa espalha-se em nossa mente como uma imensa "colcha de retalhos", onde são claras todas as fronteiras e "costuras" da estória.
Há um ser onipresente e onipotente que caminha sobre nós...e sobre nós reverencia a própria natureza com a dádiva da vida. E observa, e nos mapeia....
Suas palavras rondaram um infinito tão palpável, meu gênio. Suas palavras desnudam uma mente tão brilhante

Larissa Marques disse...

Querido, o que dizer se estou em meio àquelas crises existenciais, que você bem conhece (por também ser acometido por elas).
Minha retórica é falha, meus substantivos nulos, sem signo sem nada perto do lirismo desse seu escrito.
Arrebatam-me suas letras, simples, singelas, carregadas de poesia. Tenho uma avó Virgínia, que está em coma há 3 anos, presa entre a vida e a morte, talvez se pareça um pouco com sua personagem, talvez se pareça comigo.
Não elogiarei, apenas curvo-me em reverência a um ídolo tão particular e querido.
Grata, por fazer-me chorar, sentir-me viva.
Te adoro.

CAROLINA CAETANO disse...

Ainda estou pensando nele. E o li há mais de um mês. Eu acho.

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