30.12.10

Voyeur: noite (reeditado)

O vento soprou forte. Desta altura, a rua tinha agora um aspecto monástico. Ao invés de árvores atapetadas de orvalho: árvores de cimento prenhes de luz. Eram como São Franciscos, com seus halos, que se curvavam ao pé dela em deferência à procissão de silêncio que por ali passava. Não se sabia bem ao certo onde acabava o pavimento de paralelepípedos e onde começava a perna do cachorro pulguento que nadava pela calçada encoberta de neblina e fumaça. Tudo tão confuso e amalgamado quanto o próprio pensamento humano. E o homem desconhecido vislumbrava aquilo. Parecia-me mais um salgueiro desgalhado postado na soleira da casa abandonada, que não tinha outra função senão impedir a entrada de gatunos ou de quem quer que seja que a tanto intentasse.

Pedro deitou-se sob os alvos lençóis, apagou as luzes e, fugazmente se lembrou dos lampiões que ficavam acesos durante a noite quando era criança. Em seguida, lembrou-se do irmão, que dormia a seu lado, e que agora dormia na sala, num retrato da parede. Não pensou mais na volatilidade gloriosa da vida, não tinha aquele espanto ao relembrar o fato de que centenas de pessoas estariam, naquele mesmo segundo, morrendo dramaticamente, ou pior, se suicidando, se casando com amores explosivos, nascendo radiantes, cruzando avenidas, comprando flores ou comendo abacates com graciosidade ao redor do mundo. A alma, finalmente, voltou-se para dentro daquelas paredes, daquele corpo, daquela realidade que, mal sabia ele, era medíocre, e era sua, e era a de todos. Viu, então, a moça triste dos óculos de aros de tartaruga fechando o livro, emitindo um som surdo. E o cigarro de palha do homem desconhecido apagou.

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Atibaia,
Primavera de 2007
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Dica para ouvir durante a leitura:

15 comentários:

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Faz tempo que queria vir te conhecer. Fiquei meio besta com a prosa, com a dureza e crueldade das tuas palavras. Todas de verdade....

Sei que muitas vezes me pego assim, só que eu sei que a vida é, de muitas maneiras, ridícula e medíocre.

Mas sabe, tem momentos né...tem momentos que eu até parece que eu sei, eu sou, eu posso.

Por esses momentos.....ah, vale!

Anthus da Geb disse...

Meu caro,
Adoraria ver como o tempo tem moldado seu talento literário.
Quero ler textos inéditos...e que sejam muitos.

Beijos,
Anthus

Lara Amaral disse...

É quase inacreditável o quanto se cabe nos pensamentos anteriores ao sono. Muitas vezes, a noite é longa demais, e a gente que não cabe em si.

Ótimo texto e sempre maravilhosas suas escolhas musicais.

Beijo.

Katrina disse...

Ok, façamos as pazes pós eleições apocalipticas?

To organizando um sarau, em sampa e poxa, seria genial se você fosse (:

Larissa Marques disse...

como é bom ler você, contemplativo, meu melancólico pierrô!
saudades!

Carla Diacov disse...

Muito bom Otto, na verdade, uma delícia quando você nos faz comparsas do evento! Como diria alguém que tu conhece, BÃO TODA VIDA!Não espalha; voyerei-te toda hora!)pensei até em fazer um kit;roupa preta, mil câmeras de alto alcance, pipoca e amendocrem!hum.(
Beijos e beijos e feliz ano novo, rapá! )obrigada pelo retorno daquele meu apelo(

Dr.Stanley disse...

tem umas letradas suas que me acertam feito um Botho Strauss sinfonizado. Um deleite!

Ramiro R. Batista disse...

Humm! Ge-ni-al. Quero dizer, espécime esdrúxulo da reflexão de um misantropo esquizofrênico. O talento do escritor está em criar atmosferas capazes de transportar o leitor para aquele mundo criado na mente pelo texto recém lido. Parabéns.

Giulia disse...

Adorei as palavras, as frases, o conjunto.
A beleza através da obscuridade.
Vou virar leitora assídua dos momentos que compartilhas.

Priscila Lopes disse...

muito bem escrito, Otto, por favor, publique mais; adorei as imagens.

Ju Fuzetto disse...

E dá pra não sentir toda essa sensação de liberdade. De um sentir desajustado. E toda essa luz vem de sua escrita pulsante, intensa... A alma, a alma agradece!

beijos e Parabéns!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

a sequencia de imagens ao som da canção nos leva a mil e uma inspirações e maneira de olhar as coisas difertentes

Carol Morais disse...

Otto,
Escrito forte. Achei tão recheado de personalidade. Vi muito de sua voz ali. A voz de um poeta que precisa gritar cantos antigos.
Lindo texto.Gostei de verdade, meu amigo!

Larissa Marques disse...

Quantas e quantas vezes virei ainda, ler esse homem que traz som à palavra que omito?
Quantos e quantos versos serão compostos até que a sinfonia perfeita seja tocada em prosa tua, Otto?
Até quando?

beijo!

Anônimo disse...

Lendo ...

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